- Jura Arruda
- 28 de mar.
- 3 min de leitura
Ao abrir um livro, com expectativas ou não, o leitor é levado ao universo que o autor projetou para sua história. Ao avançar na leitura, vai identificando as imagens propostas, a geografia do local onde as cenas acontecem, o tempo histórico, o ambiente e toda a atmosfera que envolve a trama. O texto escrito flui e, à medida desse fluir, o leitor mergulha no que lê e, muitas vezes sem se dar conta, é atingido por informações subliminares contidas nas várias camadas que a literatura pode construir.

Na literatura infantil, isso se dá ainda com mais força, porque o pequeno leitor tem menos filtros e mais espaço em sua mente para explorar o novo e as possibilidades que estão contidas nas atividades lúdicas.
Em Fritz, um sapo nas terras do príncipe (clique para ouvir o audiolivro), meu livro de estreia, quis dar à história um pano de fundo que levasse o leitor a uma camada de acontecimentos reais. A ideia de escrever sobre um sapo alemão surgiu, claro, da relação da cidade de Joinville com príncipes e sapos, e encontrei jurisprudência na literatura clássica (O sapo rei, dos Irmãos Grimm) para criar este personagem.
Contudo, é sabido que nenhuma colonização é um conto de fadas, como afirmou a historiadora Raquel S. Thiago, e que nunca os donatários das terras onde se constituiu a cidade de Joinville pisaram este chão. Daí que Fritz venha em busca de uma aventura romântica irreal, de realizar um sonho impossível, e acabe por "viver tanta desventura, que só vendo".
Para o pequeno leitor, a aventura que ele deseja ao abrir o livro está nas páginas em que um sapo quer tornar-se príncipe, mas acaba deparando-se com a dura realidade dos primeiros imigrantes germânicos, o que é uma camada a se desvendar com leitura crítica e boa interpretação. Outras informações históricas estão contidas, de forma sutil, como a presença de indígenas e negros, uma narrativa engolida pelas vozes orgulhosas dos imigrantes. Também há referências ao mangue, riqueza natural que por muito tempo sofreu descaso e preconceito, e aos sítios de sambaqui, traço de nossa história que foi pisoteado por séculos.
O segundo livro, Fritz, olha o trem! (clique para ouvir o audiolivro), uso um artifício da literatura fantástica, porque preciso que o sapinho viva ainda por muito tempo: uma queda em buraco que o faz viajar no tempo. Ao sair, Fritz está em 1906 e se depara com uma Joinville diferente exatamente no dia da inauguração da estação ferroviária, um outro momento histórico para a cidade. Nesta obra, ele encontra, finalmente, seu amor, não uma princesa humana, mas uma rã "com os olhos arregalados mais bonitos que ele já tinha visto". Aqui a literatura evoca camadas do real para discutir além de sonhos e realizações, a condição em que leva a cidade a receber um trem de carga, e não de passageiros, o que só viria a acontecer anos mais tarde. O que importa mais? Podem-se questionar pais, professores e crianças, a partir da incompreensão de Futrika, a rã apaixonada por Fritz que pensou que poderia viajar de trem naquele dia.
Fritz, um sapo nas alturas (clique para ouvir o audiolivro), nasce da ideia de fechar a coleção do Sapo Fritz em uma trilogia. Se as aventuras anteriores foram por mar e terra, por que não jogar a história para o alto? Fazer este sapinho voar? E aqui, entra a parte mais sensível e profunda da história de Fritz. O pano de fundo sobre o qual acontece a história é a passagem do dirigível Graf Zeppelin pelos céus de Joinville, em 1934, numa propaganda nazista que antecedeu a 2a Guerra Mundial. Neste contexto, inocentes do que se passava no mundo, Fritz e sua família planejam um voo, motivados pela figura do dirigível que assombrou a cidade. No terceiro livro da coleção, as camadas se aprofundam em discussões sobre guerras, humanidade, deficiência física e pertencimento.
O que nasceu em 2000, quando escrevi o primeiro livro, para ser literatura infantil e valorização da cultura local, chega duas décadas depois, como literatura que se vale de ferramentas textuais e de pesquisa para ir além do entretenimento. Ousadia? Talvez, mas se não fosse por ser ousado, e sonhador, Friz estaria, hoje, no porto de Hamburgo, na Alemanha, fossilizado.

