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  • Foto do escritor: Jura Arruda
    Jura Arruda
  • 24 de nov. de 2024
  • 1 min de leitura

Hoje de manhã, eu encontrei um passarinho morto. Não, ele não estava morto, agonizava no chão de minha cozinha. Pouco antes, eu ouvia um piar insistente e monótono, não atentei, ainda que o som parecesse vir de tão perto, ainda que parecesse haver um pássaro dentro de casa.





Saí por alguns minutos para um passeio habitual com os cachorros. Quando voltei, encontrei-o com movimentos de abrir e fechar o bico, mas sem o som de antes, deixei cair umas gotas de água para que ele bebesse. A água já não podia salvá-lo. Sobre a palma da minha mão, ele fechou suavemente os olhos. 


Há outros pássaros cantando lá fora, mas ainda ouço o piar monótono, prenúncio de sua morte. Partir é canção de uma nota só.

 
 
 
  • Foto do escritor: Jura Arruda
    Jura Arruda
  • 24 de set. de 2024
  • 2 min de leitura

Coluna: Nossos dias | Folha Metropolitana

Por Jura Arruda

@juraarruda_escritor



Tenho ouvido a frase aí do título. Há anos. E ando mesmo a concordar, porque a política é mesmo um saco onde se tem jogado muita coisa fora. Ao escolher um candidato, e o termo "escolher" aqui é incoerente na maioria das vezes, estamos jogando no saco nosso descaso, nossa incompreensão do que é este sistema que se propõe organizar a sociedade de modo que haja a possibilidade de convívio e igualdade; que dá voz ao povo através de seus representantes. Sendo prático, ao "escolher" qualquer um, sem saber suas intenções, sua ideologia, seu passado, sua posição diante de grandes questões humanas, eu posso estar colocando um lobo para cuidar de ovelhas. Quem eu escolho para me representar deve ter, no mínimo, as mesmas ideias de sociedade, de ser humano, de justiça e de liberdade que eu. Mas este "eu" também deve estar com ideias bem definidas, a partir de um entendimento de mundo, do viés humano da sociedade e, se possível, das estruturas de poder. Mas, acima de tudo, imbuído de tolerância e empatia, de sensibilidade e senso de justiça.

Bem, as estruturas do poder são complexas mesmo para quem faz parte delas, contudo, é fundamental saber que, basicamente, o dinheiro navega pelos corredores e determina a ética, a moral e o caráter dos tais representantes. Este dinheiro, crianças, não está em suas mãos, nunca esteve. Ele é arma dos poderosos e pode tanto convencer ou fazer mudar de opinião os mais conscientes membros das instituições de um Estado, quanto transformar mentiras e boatos em verdades incontestáveis. Mas isso só é possível porque vivemos a triste realidade da falta de informação, porque somos impactados por qualquer mensagem, em outras palavras, caímos em qualquer conto do vigário, ainda que seja inconcebível a sadios olhos nus. Só é possível esta realidade em que dinheiro vale mais do que pessoas, porque jogamos nosso voto no saco sujo da política corriqueira e cruel.

Os semáforos da cidade estão repletos de bandeiras e pessoas sorridentes que aproveitam a parada dos carros para oferecer panfletos e falar de seus "escolhidos". Recebi numa única parada de 30 segundos material de campanha de três candidatos a vereador, prometendo o impossível, coisas que não dizem respeito ao seu cargo, porque são definidas por lei federal. Um deles, colocou sua religião acima de tudo, e isso é grave, porque política é movimento social, é ferramenta para oferecer dignidade aos que vivem numa comunidade; a religião, por sua vez, é relação íntima com as divindades, é caminho particular, é ferramenta de curar a alma, não bandeira, convicção ou fé a se empurrar goela abaixo. Cada um tem seu caminho para se "religar" ao divino. E mesmo isto, a gente precisa ponderar na escolha de um candidato. Ou continuaremos tratando a política como um saco, e sendo tratados como gado, rebanho que não sabe olhar para cima.


 
 
 
  • Foto do escritor: Jura Arruda
    Jura Arruda
  • 29 de abr. de 2024
  • 1 min de leitura

Hoje, ao tomar café, abri o celular. Sei que não se deve fazer isso, macular a degustação com mazelas e tontices que a internet alimenta. Mas foi providencial, porque ouvi a atriz Alessandra Maestrini ler um texto de Rubem Alves sobre o olhar poético e entrou-me por olhos e ouvidos a sensibilidade e a arte.


Corri ao escritório com a urgência de quem precisa registrar a ideia antes que ela se perca no palavrório prático das necessidades cotidianas. Por descuido, havia deixado acabar a bateria do computador. Liguei cabo, apertei mil vezes o botão de ligar, cada segundo levou dois minutos e me pôs angustiado.


Quis xingar a tecnologia e os astros, mas ainda estava contido do olhar poético e me acalmei. A página em branco se abriu diante de mim e eu podia tudo, e pude tudo, e tudo o que pude foi fazer poesia.



Pousou-me no ombro, tal dor

Uma nódoa, um borrão

Um incômodo, um vergão

Que trouxe manso torpor

Água arrefecendo ardor

Chuva boa sobre a terra

Compaixão sobre quem erra

Essa nódoa, na verdade,

Era a sensibilidade

Aparelhando-me à guerra.


Não do insano combate

Que desse fujo e me esquivo

Quero na vida estar vivo

Mesmo que a dor me maltrate

Almejo que não me mate

A frieza e a maldade

O afeto pela metade

Quero o olhar sobre o humano

Porque se é pra ser insano

Que seja felicidade.


Jura Arruda


(Décima em redondilha maior, fruto das aulas de Cordel com Iratan Curvello e Salomé Pires)

 
 
 
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