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Cai o pano

  • Foto do escritor: Jura Arruda
    Jura Arruda
  • 9 de mai.
  • 3 min de leitura

Há um cheiro cítrico na entrada. Não é bom, remete a algo pútrido. Imagino que exale dos meus pensamentos, da expectativa ruim desde que fui chamado porque "era preciso falar pessoalmente".


A porta, ao contrário dos outros dias, está aberta. Não preciso me anunciar. Subo os dois lances da escada. Há um casal aguardando em um dos sofás. Entro e sou recepcionado com um sorriso breve da moça afundada atrás do balcão. Não dou boa-tarde, minha visita não é para isso. Digo apenas "Arlequim", o sorriso da moça afundada atrás do balcão se desfaz. Sabemos o motivo de minha vinda, ela sofre por antecipação ou se mete em uma armadura de resignação que é seu modo de encarar o que há de vir. Ela pergunta o nome do responsável. Informo. Pede para que eu aguarde. 


Uma das médicas chega à recepção, não me olha nem me cumprimenta como fez nas vezes anteriores. Mexe em uma caixa, fala com a moça afundada no balcão, minutos depois sai.


Aguardo pela má notícia. Quero me servir de café, mas temo que seja chamado antes de terminá-lo e não saiba o que fazer com o copo ainda quente que vai pela metade. Não me sirvo, nem sei se quero tomar café neste momento. 


Sou invadido por lembranças e ensaio uma retrospectiva de nossos momentos. Ainda ontem, assisti novamente a um vídeo de quando ele tinha apenas 43 dias, saltitava com as quatro patas ao mesmo tempo, um protótipo de cabrito a brincar com uma pequena bola de borracha. 


Sou interrompido pela chegada de um cachorro preto, robusto, que veste um colar de proteção e chora ao ver os donos. Sua responsável informa que ele é agitado mesmo. Vejo-o andar de um lado para outro, como a buscar algo que o espaço lhe nega. Está ofegante e recebe carinho do homem enquanto a mulher negocia valores e remédios. 


O cachorro se deita, segue respirando com dificuldade, faz barulhos estranhos, mas está mais calmo agora. A mulher propõe pagar o que deve em cinco vezes, depois de reclamar da caristia. 


Uma senhora atravessa a sala segurando um saco plástico de limpeza. Não interage. Entorna o que tem em dois cestos de lixo no saco preto e sai. O casal e o cachorro ansioso vão embora, carregados de dívida e esperança. "Ele vai ficar bom", pareço ouvir. 


Invisível, ainda aguardo. Um senhor entra e informa a situação de seu Snoopy, do qual não sabe a raça nem a idade. 


A médica chama uma moça sorridente que acabou de chegar. Sigo invisível. A demora me faz lembrar do dia em que fui com meu pai receber o resultado de seus exames. Uma demora além do habitual que foi esclarecida com o desconcerto do médico e suas poucas palavras, entre elas, "câncer".


Sou, finalmente, chamado. Vou ao consultório que fica no fim do corredor. O semblante da médica é de compaixão, ela não precisa dar a notícia, me adianto: "Estamos esperando o pior", porque quero facilitar para ela. Ouço que a situação é grave e que o tempo está se encerrando. O que há de mais humano a fazer é sedá-lo e colocá-lo para dormir seu sono eterno. 


Já havíamos conversado sobre isso e aceito que meu Arlequim está deixando o palco. Ela vai buscá-lo para que eu o veja uma última vez. Não sei se ele me reconhecerá, creio que não. Fecho todas as compotas, mas meus olhos me traem e vazam. 


Ele chega envolto em uma coberta, a médica que o traz nos braços assemelha-se a uma doula. Arlequim é, agora, um bebê, mas em vez de a doula oferecê-lo a mim, ela o coloca sobre a mesa de mármore frio. Lateralizado (palavra nova e cruel que ouvi nas últimas semanas), ele parece ausente. Vou ao seu encontro, ele tem o olhar perdido, não faz festa, não balança o rabo, não chora, nem diz que sentiu minha falta.  Acaricio suas orelhas. Letárgico, se deixa acariciar. A médica sai para imprimir a autorização que devo assinar. 


Não assino sua sentença, Arlequim, é sua carta de liberdade para você seguir adiante, quem sabe voltar um dia numa outra forma, visitando-me como brisa de outono, chuva de verão ou na pele de uma iguana, que é uma possibilidade, porque às vezes você leva o maior jeito. 


Em seus olhos já quase não caibo mais. Agradeço num quase inaudível "Obrigado por tudo". Beijo você demoradamente, porque agora você permite, já não luta contra o que lhe invade espaço e focinho.  


A médica volta, assino o papel, ela pega seu corpo frágil e eu me despeço. Antes de sair pela porta, vejo que ela também chora. Você não volta para casa. Eu sim, com um vazio enorme, meu menino. Termina nosso espetáculo, nossa Commedia. Não há aplausos, você me deixou sozinho no palco.


Cai o pano.


Jura Arruda

 
 
 

2 comentários

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Convidado:
15 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Triste, mas tão lindo… Uma prova de que os corações, humanos e não humanos, não são separados. Meus sentimentos, meu amigo!

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Marisa Toledo
Marisa Toledo
09 de mai.

Emocionei com vc, amigo. Arlequim segue para outros carnavais. Deixa saudade. 🖤

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