Pequenas histórias de grandes insignificâncias
Contos publicados semanalmente na Folha Metropolitana que, lidos em sequência, compõem um folheto.
Jogando com o realismo fantástico, o autor explora os mistérios de uma cidade onde o tempo é conduzido por um vendedor de livros.
#01
História para encontrar a moça da padaria
Era só um café na padaria, tão banal quanto qualquer coisa banal. Depois do trabalho, para jogar conversa fora com um amigo. Pois, foram dez minutos de conversa fora e a moça entrou para desviar assunto e atenção. Era pequena, curvilínea e elegante. Trazia consigo um menino que talvez fosse seu filho. Havia uma joia no dedo que não se parecia com uma aliança. Pediu um suco de laranja e uma torta doce que o desatinado não identificou porque estava mais interessado nos olhos dela. A moça retribuía com algum interesse, mas ele não encontrava palavras, nem qualquer, nem nenhuma.
Ora! Uma perguntinha que fosse!
“Você não é professora? Parece tanto com alguém que conheço”. Ela responderia: “Não. Eu trabalho na empresa Tal”. Diante da abertura, ele perguntaria: “Você não é esposa do Chico?” e ela responderia: “Não, eu não sou casada”.
Trocariam telefones.
Mas essa artimanha não lhe ocorreu. Os minutos se foram, o copo se esvaziou e ela saiu, não sem antes lançar-lhe um último olhar, quase uma súplica, que ele, sôfrego e engessado, não atendeu.
A probabilidade é que não se vejam mais e isso seja só uma história. Mas pode ser que ela leia essa história, e isso será só o começo.
#02
Nuvem na montanha
Gotas de chuva tamborilavam na varanda. A tarde ia lenta como há muito não se via. “É bom dar um tempo para as coisas, deixar o mundo entrar na gente”, ela pensava olhando longe as nuvens cobrirem a Serra do Mar. Uma chuva, talvez uma garoa, se pronunciava. Era envolvida pela atmosfera daquele dia como se fosse montanha e a vida nuvem. Está bem melhor ser sozinha por esses dias.
Ela optou por deixar que nuvens se acumulassem ao redor de si. O silêncio se fez necessário para que ela se ouvisse por dentro, que compreendesse o ritmo que seu coração propunha depois que a vida lhe tirou o bem mais precioso. Aquela montanha e as poucas manchas azuis de um céu sufocado por nuvens parecia tanto com ela, parecia tanto com a imagem que ela mesma fizera dela: impávida e serena, de mulher que encontra seu lugar no mundo.
Foi interrompida em seus pensamentos pelo cheiro que a cozinha exalava de pão assando, ela entrou, pôs a mesa. Leite, manteiga, geleia, xícaras e talheres sobre a toalha de renda não usada há anos. Chuva fina, café passando, tarde lenta, uma espera, um som de gente chegando. Entraram todos de uma vez, invadiram como nuvem a montanha que ela era.
- Oba! A vovó fez pão, a vovó fez pão!
#03
Migalhas de pão
Migalhas de pão alimentavam as pombas da praça principal. Velhos, descrentes da morte, matavam tempo alinhando peças de dominó sobre uma mesa. O sino da igreja reluzia um dourado esplendoroso, marca e orgulho das castas abastadas da cidade que, encaixada entre serra e mar, sustentava histórias de conquistas e glórias que sequer ocorreram.
Jurema tirou do pacote mais um pedaço de pão, que Iraê rasgou em pedaços menores e lançou ao chão. Cercado por sete pássaros de olhos vermelhos, o pequeno sorriu quando um deles bicou-lhe o dedo de um dos pés.
Do outro lado, um homem sentado na calçada tinha à sua frente, livros usados. A moça aproximou-se trazendo Iraê arrastado. O homem era calvo e ostentava uma barba irregular. O corpo estava metido num paletó um tanto inapropriado para aquela atividade. Jurema abaixou-se e passou a mão por alguns livros.
– O que a moça procura?
– Não sei, respondeu ela.
Dostoiévski passou os olhos pelas obras e sorriu.
– Sabe.
– Oi?
– Você sabe o que procura, e sabe que não está aqui.
O vendedor apontou para a padaria do outro lado da praça, mas não pode ser ouvido quando disse “O que você procura está lá”, porque a freada brusca de um carro calou a tarde.
– Iraê! – gritou Jurema.
#04
Segredos de sola e sapatilha
Há uma sapataria numa das pequenas ruas da cidade, tão escondida quanto o musgo que ocupa o vão entre a calçada e o muro. Há um jacatirão a dar-lhe sombra e esconderijo.
– Quem, hoje em dia, manda consertar sapatos, Jovino? Compre outro e jogue esse no lixo.
– Esse sapato tem história, Dostoiévski. Eu quero consertar.
– Você sabe que Genival é louco – comentou o vendedor de livros olhando para o lado e torcendo o pescoço, num gesto que se tivesse som diria: “Tô-avisando-mas-se-quiser-ir...”
Jovino foi, porque era homem de opinião e porque o sapato era velho companheiro de tanto passo, e merecia novo solado, nem que fosse pra ficar no armário, feito relíquia que só serve pra trazer lembrança e assuntar saudade.
Dostoiévski sentou-se, pegou um livro e folheou sem ler. A ida de Jovino à sapataria, ele sabia, seria o início de uma homérica confusão naquela cidade. Mas se estava escrito…
– Boa tarde, Seu Genival. Trouxe um par de sapatos que precisa de conserto.
– Estava esperando por você, Jovino. Dê cá o bicho.
Jovino entregou os sapatos:
– Precisa de sola nova e de uma costura aqui ó… estava esperando por mim?
– Entre.
Ninguém mais soube de Jovino.
Na praça, um rato atravessou a calçada sem olhar para os lados.
#05
Frio na barriga
Julinho vinha faceiro pela praça trazendo amarrado à corda um caranguejo, que ora andava à revelia, indo para o lado, ora era puxado num golpe rápido do menino. Os velhos do dominó, que ocupavam as tardes nas mesas de cimento da praça riam. Schmidt despachou o doble de sena e perguntou:
– Tem nome esse caranguejo?
– É meu cachorro.
– Ele morde?
– Só xereta.
Todos riram da ligeireza do menino que seguiu na direção da catedral.
– Cadê Jovino? – perguntou um dos velhos – Ele não vem jogar hoje, não?
– A última vez que vi estava conversando com o maluco do Dostoiévski, ontem – comentou Schmidt, ao que Venâncio mudou de assunto.
– E aquele menino atropelado? Alguém sabe dele?
Antes que alguém respondesse, o andarilho da cidade chegou e, avistando o menino com o caranguejo do outro lado da praça, gritou:
– Será que estou cego? São animais? São vegetais eucaristianos? – em seguida, vendo Schmidt, gritou – Hei, senhor das tréguas!
– Some daqui, seu mundice!
Julinho descia rumo ao rio que corta o centro da cidade, optou pelo caminho mais longo e sentiu um frio na barriga ao passar em frente à sapataria de Genival. Correu de volta para a praça, com o caranguejo voando atrás de si e contou, ofegante, ter visto um par de sapatos saindo sozinho de lá.